segunda-feira, 30 de março de 2026

Jardim desgovernado

cultivo tantas palavras e
minhas árvores parecem dicionários abertos
falando o que não consigo pronunciar.
cultivo tomates, tão vermelhos
quanto meus olhos ao dormir de madugada.
cultivo couve, com sua tonalidade forte
tão itensa, escura como as dores
que não sou capaz de colher.
ficam aqui, remoendo, revivendo, replantando
estragando meu vocabulário
estragando tantas coisas que eu tinha pra te dizer...
cultivo manias, sons, vontades, sonhos
tão despedaçados, desesperados
indecifráveis, como uma palavra que vai madura
ao meus pés, pronta pra caminhar.


Camila Barros

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Cardiovascular

Ah, meu coração
Aquele cujo os cadarços
Estão apertando
Na calada da noite
No momento que eu
Mais te peço ajuda

Meu coração
Tão experiente em dor
Tão qualificado em lamentar
Puro sangue
Bombeando pra fora do corpo

Meu coração
Tão desordenado
Afetando minhas lágrimas
Ativando meu abraço próprio
No momento em que eu
Mais precisava de você

Camila Barros

Olhando daqui do outro lado

Ah, eu vi você sair de casa
Não por vontade
Eu vi você crescer a vida
Não pela idade
Eu vi você plantar coisas
Que só deveria comer
Depois de adulta
Eu vi você pisar na calçada
E entender a luta.
Sim, eu vi você menina
E no mesmo aniversário
Se tornou mulher
Eu vi suas cartas
Pedindo ajuda
Eu vi a ajuda andando pra longe
Mas eu também vi quando choveu
E vi quando você se deitou
Embaixo do arco íris
Pra tornar tua pupila e íris
Aquelas cores para viver

Camila Barros

segunda-feira, 26 de maio de 2025

play

algumas canções deixam nosso coração miudinho. cada agudo funciona como uma costura que aperta, que afeta sem medo de rejeição. o refrão gira em torno de muitas lembranças que permitem fechar os olhar, pensar, sorrir, até chorar de saudade. as trilhas sonoras dos livros de amor fazem a vida viajar e traduzimos outros idiomas ao pé da nossa letra. olhos nos olhos, correndo pra boca, mordendo de longe. as músicas são nosso flúor.

eis que uma música nova surge de forma aleatória, causando o mesmo impacto, a mesma dor, a mesma curiosidade e vontade de retornar ao passado e viver como se fosse o presente mais bonito de natal dos últimos tempos. parece que não temos tanto tempo para viver, ou que daqui pra frente as coisas não irão se desenrolar. mas temos então o refrão, que continua girando em torno de tudo que foi melhor na vida. então, que coisa mais estranha a sensação de ouvir uma música que nos infiltra como um remédio injetado na veia em grande proporção. que estranho tentar engolir com água os nós que as melodias trazem. que maluquice é essa de ser dominado por sons de violão e letras com frases de efeito.

reflito então que queria ter feito muitas músicas, mas não fiz. queria ter feito vários caminhos, mas não fiz, então me entrego aos sons dos bandolins de montenegro ou violas de sater e me faço livre e entorpecida quando tenho fones.


Camila Barros